ENTREVISTA COM LEILA MICCOLIS-CO-AUTORA DA NOVELA MANDACARU NA BAND.
1-Leila, começo por uma pergunta simples, mas de extrema curiosidade de todos alunos engajados na arte de escrever seja para TV ou cinema. Como você começou a carreira de roteirista?
LM – Escrevendo para revistas de histórias em quadrinho. Assim que deixei de advogar, vivi durante uns dois anos escrevendo para gibis e fotonovelas. Acho que essa experiência foi providencial. A mesma opinião teve o Henrique Martins, em 1983, quando comprou meu “Caso Verdade” “Pais Problemas”, para a TV Globo. Também a poesia, que é a minha menina-dos-olhos, ajudou-me e continua auxiliando muito – da concisão das story-lines até a costura de
idéias, a cissura dos cortes, fusões e elipses. E justamente devido a essa minha trajetória pessoal, sempre tento estimular as pessoas a se dedicarem a mais de um gênero literário, porque todos eles se auxiliam mutuamente e contribuem para o exercício da profissão de uma forma mais ampla.
2-Atualmente, seja na música, como no cinema, pintura e também na literatura, os artistas não conseguem estabelecer um diálogo com a sociedade contemporânea. A que se deve isso?
LM - Francisco, eu acho que em matéria de pessoas não se deve generalizar. Eu vejo o Chico, o Caetano, o Raul Seixas – na área musical –, o Walter Moreira Salles, no cinema, o Alcides Nogueira no teatro, o Olbinski, nas artes plásticas, todos eles com um intenso diálogo com a contemporaneidade. Na literatura, então, a lista é enorme, diariamente aparecem mais autores preocupados em promover essa conexão. Inegável que em todos os tempos há artistas que sentem mais dificuldade em desenvolver essa fala articulada, restringindo-se aos monólogos; mas nem por isso não posso dizer que nossa época é carente de debates atuais e de questionamentos instigantes. O que acontece é que a indústria cultural não tem muito interesse em enfatizar polêmicas. Como seu intuito é o lucro comercial, ela aceita tudo o que aparece para não deixar nenhuma fatia do mercado desguarnecida de produtos à venda. No entanto, prioriza muito mais o que lhe apraz, o modelo estandardizado, do que o que lhe desagrada ou foge à padronização. E por isso que esse diálogo muitas vezes fica pouco visível e pode passar despercebido.
3-Quando se fala em cultura, o povo reclama: nós queremos é comida. Hoje se justifica a crise cultural pela crise econômica. Os jovens não lêem porque o livro é caro e eles não têm tempo para ler. Fica ridículo falar que nem só de pão vive o homem, pois hoje o pão está faltando. O que você acha disso?
LM – Realmente, quem passa fome não vai pensar em comprar um livro. No entanto, mesmo que o problema não fosse esse, continuaria não comprando, porque o incentivo à leitura é quase nulo, então a desmotivação é a regra geral. O próprio autor é também cúmplice, porque, principalmente, os poetas, têm ainda uma visão romântica da literatura, e acha que ela se “conspurca” enquanto mercadoria. Não percebem que em um sistema capitalista, o valor econômico não pode ser ignorado, e que preceitos mercadológicos – como o da oferta e da procura – precisam ser pensados e pesados por eles, porque já o foram de há muito pela indústria cultural. Como eu costumo ironizar, o autor brasileiro ainda está muito mais para as intrigas da corte do que para as leis que regem a indústria cultural. A edição de um livro é cara porque o material com que ele é feito é caro também, e envolve inclusive a devastação de árvores, a utilização de material a base de petróleo, maquinaria especializada, etc. Carro também é caríssimo e cada vez mais as vendas não param de subir... Usando portanto de total franqueza, não se lê não é porque não se tem tempo ou porque o livro é caro, mas porque não se tem é vontade. Não há dinheiro para comprar livros? Mas já existem livrarias em que você pode ler as obras no local, sem pagar nada... E também ótimas bibliotecas... inclusive virtuais. Aliás, já que o assunto surgiu, acho que os e-books podem aliciar crianças e jovens, com seus gifs animados e sua interatividade. Lógico que estou referindo-me às crianças e jovens da classe média, uma vez que a classe pobre e a classe rica têm outros interesses prioritários. Não descartando a possibilidade de estar superestimando a Internet, vejo-a abrindo caminhos e possibilidades na conquista de futuros leitores através de suas ferramentas lúdicas, como imagens em movimento, simulações, recursos áudio-visuais, montagens e hipertextos. Todos esses recursos acrescentam novos sabores à leitura, tornando-a mais dinâmica, mais ágil, mais interessante, e aproximando o leitor-internauta de quaisquer tipos de livros, inclusive dos clássicos, que ao perderem muito de sua sisudez e pretensa seriedade tediosa serão redescobertos e degustados com prazer.
4- Oscar Wilde dizia: hoje trabalhei exaustivamente no texto “fiquei a manhã inteira para colocar uma vírgula, e a tarde inteira para tirá-la”. Escrever uma novela é um trabalho monstruoso. Como é seu processo de criação? Você segue alguma rotina durante as novelas e minisséries?
LM - Que delícia essa citação. Só mesmo você para garimpar essas pérolas. É, naturalmente não dá para se ter esse ritmo do Wilde em uma novela televisiva – creio que, nesse passo lento, ele não escreveria nunca para a telinha, pois o ritmo é acelerado, de 40 páginas por dia. Meu esquema de trabalho é primeiro fazer a escaleta do capítulo e depois tentar cumpri-la – rotina nada rotineira porque muitas vezes ela se rebele contra mim e acabo tendo de sair fora dela e improvisar... Apesar de ser um trabalhão, também é divertidíssimo, instigante, desafiante o tempo todo, um tipo de game ou de esgrima com palavras. Então, o tempo costuma passar rápido. Dedico-me o mais possível aos diálogos, porque é através deles que a emoção e a tensão fluem no grau exato que queremos. Neles podemos captar o estilo do autor. Dizem que “o silêncio é de ouro e a palavra é de prata”; pois eu penso que, dependendo do momento, um silêncio em vez de uma fala pode ser catastrófico. Eu amo a palavra e acho que ela pode ser de ouro também, se estiver no lugar certo, na hora exata e na embocadura adequada ao ator ou à atriz. Além do mais, silêncio e palavra são linguagem (não-verbal e verbal); não são antíteses opostas, mas atos complementares. Eu sou uma apaixonada por diálogos, falas e pausas. Adoro linguagens...
5-Na vida é possível decifrar a persona de um individuo através de um único gesto, como você decifra-os na literatura, na poesia e principalmente no roteiro?
LM - Em um único gesto creio que não – nem na vida, nem na arte. Um gesto isolado nos leva, no máximo, a entender o pensamento de alguém no instante em que ela ou ele o praticam, mas não a sua “personalidade” toda. Você tocou em um ponto muito importante. Quem escreve precisa ter clareza dos limites de sua criação para não misturar estações ou acabar desenvolvendo múltipla personalidade... risos... Não podemos esquecer que o escritor lida o tempo inteiro com a criação de emoções e que isso é uma faca de dois gumes: atinge o receptor, mas também o emissor. Ambos se enredam em tal rota/roteiro... Só que uma pessoa concreta não é um personagem que habita cenas ou cenários cenográficos, não temos CORTA PARA/ a cada situação desagradável, ou controle remoto para mudarmos nosso próprio canal a cada aborrecimento ou tristeza. Então, saber separar a ficção diária ou literária da realidade concreta, me parece essencial para a sanidade não só do escritor, mas do leitor e/ou espectador também – apesar de nem sempre ser muito fácil, convenhamos, já que hoje em dia há ficções que parecem bem mais reais do que a própria realidade, podendo passar-se perfeitamente por elas e até substituí-las, o que dificulta a percepção da essência do verdadeiro.
6-E essa "retomada" do cinema nacional? Você tem alguma opinião sobre o que produziu este novo interesse pelo cinema brasileiro?
LM - Eu acho uma maravilha. Por exemplo, para quem como eu vivenciou os “anos de chumbo” do Brasil, a exibição de um filme como Zuzu Angel, em circuito nacional, nesse momento, não só mostra ao eleitor jovem o preço que pagamos pela nossa atual democracia, como também pode ajudá-lo a refletir sobre a escolha do seu próprio candidato, considerando uma série de fatores – olha aí, Francisco, mais uma clara ilustração do diálogo da arte com o seu tempo...
7-Os filmes de hoje não são muito bons em ganhar espectadores, com história e personagens fracos? São as histórias e não os roteiros que ainda são mal construídos? Quais filmes você considera que têm no roteiro o seu ponto forte?
LM - Francisco, você está um tanto pessimista hoje ou é impressão minha? risos... Novamente, não vou encampar esse tipo de generalização. A lista de bons filmes (nacionais e estrangeiros), com a construção de excelentes roteiros, poderia ocupar páginas e páginas... Vou citar, apenas, de “uma dúzia de dez”: Terra estrangeira, do Valter Moreira Salles, Má Educação, do Almodóvar, Corra Lola Corra, do Tom Tykwer, Os outros, do Almenábar, Mera Coincidência, do Barry Levinson, A vida é bela, do Roberto Benigni, Truman, o Show da vida, do Peter Weir, Eles matam e nós limpamos, do Red Braddock, Marvada carne, do André Klotzel, Marnie, de Hitchcock, Julieta dos Espíritos, de Fellini, Truffaut em Noite Americana, Nelson Pereira dos Santos com O amuleto de Ogum, Buñel com O Anjo exterminador, O Encurralado, do Spielberg, O Baile, do Ettore Scola, Percy Adler em Rosalie vai às compras, Adrian Line com Alucinações do Passado e Atração Fatal, Tomates verdes fritos, do Avnet... Chega, cansei... risos... Relendo essa resumidíssima relação, não posso deixar de tecer uma consideração meio lamentável: nossa profissão é tão ingrata (no Brasil, até hoje, nem profissão temos, porque não está ainda legalizada) que lembramos muito mais do nome dos diretores do que dos roteiristas ou dos autores cujas obras foram adaptadas para cinema...
8- Um bom roteiro pode ser considerado um trabalho literário, artístico?
LM - A maioria dos teóricos literários e até mesmo dos roteiristas acha que não. Sou minoria: discordo. Acho que um trabalho que usa técnicas literárias, teoria literária, dramaturgia e poética (que desde a Grécia clássica eram literárias) literária é... (“Bicho de goiaba, goiaba é...”). A trama, em si, já é uma construção literária (com os nós, a intriga, os conflitos, o perfil dos personagens e tudo o mais). A literalidade e a construção da trama são indissolúveis, uma não sobrevive sem a outra. O roteiro, o argumento, a sinopse, são escritos literários (pictóricos ou plásticos é que não são...). Podemos até achar, muitas vezes, que o diálogo é pobre; a tensão, fraca, o estilo, inconsistente, o conflito, inconvincente... No entanto, ao falarmos de diálogo, tensão, estilo, conflito, narrativa, dramaturgia, actantes, composição da fábula, adaptação, modernização, transcriação, e gênero (comédia/tragédia) estamos nos referindo a termos pertencentes à seara literária, que se originaram dela e desembocam nela ininterruptamente.
9- Quais são as matrizes do seu fazer cinematográfico? De que autores e filmes você gosta?
LM - Eu até hoje escrevi apenas três curtas e um longa, que nunca foi filmado, por tratar-se de uma superprodução: “Cassianã” é a adaptação de um romance que ganhou prêmio nacional sobre o ciclo da borracha, no Amazonas, do Paulo Jacob. Também fiz o roteiro final do “Terra Prometida”, mas nem cheguei a ver o filme no cinema. Os curtas são baseados em poemas meus: “Oração infantil”, “Horário Nobre” (esses dois do meu ciclo infantil) e “Devastação” (temática ecológica, mas não só...). Tenho ainda dois roteiros ainda inacabados, “Regeneração”.e uma adaptação do romance de Urhacy Faustino, “Colibri deflora os chats”. Quanto aos autores e filmes de que mais gosto já respondi acima, embora possa acrescentar mais muitos outros cineastas como Ken Russel, Kurossawa, Michel Gordon (excelente tanto em comédias quanto em dramas), Andrucha Waddington em Eu, tu ele (maravilhoso), Regis Wargnier (Eu sou o senhor do castelo), Zemeckis, Attenborough, Woody Allen, Mel Brooks, Stanley Donen (Dançando nas nuvens), A última tentação de Cristo do Scorsse, entre muitos e muitos outros.
10-O escritor reúne fragmentos da realidade, reconstrói os trechos em outra seqüência e faz literatura. A vivência dessa reconstrução através da leitura vale como se fosse uma experiência da própria realidade, ou é outra coisa?
LM - Pois é, volto a dizer – e acho que vale insistir nesse aspecto – que é preciso, hoje mais do que nunca, termos noção clara do que seja criatividade, criação, invenção, invencionice, fantasia, ilusão, ficção, irrealidade, mentira, virtualidade, devaneio, potencialidade, burla, engano, sonho, logro, falsidade, cópia, originalidade, plágio, aparência, realidade. Nem sempre é tarefa fácil nos dias atuais, quando podemos inventar notícias, criar gente ou animais em terceira dimensão, deflagrar até guerras, sem sair de uma ilha de edição... Com o avanço da tecnologia cada vez se torna mais difícil distinguirmos se uma imagem ou uma informação existiu mesmo ou se não é apenas fabricada. Então, se costumávamos dizer, brincando inocentemente, que a arte imitava a vida, agora a arte (tecnológica, digital) pode criar mundos paralelos, através de efeitos óticos, manipulações de dados, de enfoques, de ângulos e de enquadramentos que parecem verdadeiros... Encena-se a vida, e vale tudo nessa arte do espetáculo. Diante de tais distorções, desse forjar de imagens construindo uma realidade totalmente enganosa, a literatura e sua leitura, entendida aqui como seu processo interpretativo, começam a questionar não mais a mimese ou a verossimilhança, mas o simulacro, que em vez de copiar, cria, acrescenta, muda, transforma. As novelas de televisão já abordam problemas sociais graves, e, embora ainda haja uma função catártica nelas muito grande, os textos teledramatúrgicos não se localizam, como de início, no centro de jardins floridos ou em territórios neutros. A literatura cada vez mais adentra a realidade, porque no absurdo, na paródia da própria vida, na ficção muitas vezes surreal, na ilusão consumista de felicidade, a maior parte das pessoas já vive alienadamente quase que o tempo todo.
ZUZU ANGEL
FRANCISCO MALTA
O diretor Sérgio Rezende (Guerra de Canudos) leva às telas a cinebiografia da estilista Zuzu Angel. Com Patrícia Pillar, Daniel de Oliveira, Luana Piovani, Leandra Leal, Alexandre Borges e Paulo Betti.
Brasil, anos
A narrativa cheia de boas intenções não salvam o filme.
A começar pelo roteiro que é um fiasco, cenas mal feitas e mal construídas. O elenco na maioria artificial, interpretações sem verdade e alguns atores com anos de trabalhos repetem os mesmos personagens de novela que esta no ar como é o caso de Cobras e lagartos. A impressão que se tem é que estamos diante de um capitulo de novela. É uma pena. Por essas e outras que o público vem se afastando do cinema nacional. Assistir novela a gente assisti em casa.
Ficha Técnica
Título Original: Zuzu Angel
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 110 minutos
Ano de Lançamento (Brasil): 2006
Site Oficial: www.zuzuangelofilme.com.br
|
||
![]() | ||
|
|
||
![]() | ||
|
||